20/05/2014
A vazia macroeconomia dos presidenciáveis *
A acentuada queda da aprovação popular ao governo Dilma Rousseff e a identificação do sentimento de mudança no eleitorado brasileiro, apontados pelas mais recentes pesquisas de opinião, provocaram, na prática, a deflagração do ciclo eleitoral e a explicitação das ainda preliminares e evasivas agendas nas áreas econômica e social.
Até aqui, as diretrizes gerais das plataformas dos principais candidatos revelam-se vagas e pouco articuladas com as mensagens pontuais que vem sendo apresentadas na mídia e dirigidas a um público votante desanimado e desconfiado, com características sociais e preferências bastante heterogêneas. Conforme o Instituto Datafolha há registro de recorde histórico de presença de indecisos (8%) ou que votariam em branco ou anulariam o sufrágio (16%), no painel de eleitores pesquisados.
Desde o pronunciamento alusivo ao dia do trabalho, a petista não admite seus malogros e emite sinais bastante nítidos acerca da perenidade dos eixos chaves da gerência atual, refutando guinadas de rumo e transmitindo a ideia de insistência em iniciativas que contraem a poupança pública e os investimentos e mantem acesa a chama da inflação, por meio da manipulação dos preços.
De seu turno, a oposição tem demonstrado desconforto em conciliar a avaliação dos inúmeros fatores de perturbação, contidos na gestão Dilma, e as proposições de ações e medidas austeras e impopulares de combate à espiral inflacionária e ao desequilíbrio das contas públicas – determinados pela impulsão dos dispêndios federais e pela correção dos salários reais acima da produtividade do sistema – que possam vir a derrubar algumas conquistas sociais relevantes, como a redução dos patamares de desemprego nas regiões metropolitanas, o aumento da formalização do mercado de trabalho e a atenuação da desigualdade na distribuição e renda e da pobreza.
Aécio Neves tenciona perseguir o centro da meta de inflação de 4,5% ao ano e Eduardo Campos pretende reduzi-la gradativamente a partir de 2016, começando com 4% e chegando a 3% em 2019. Os três principais candidatos desejam maior autonomia para o Banco Central, sem esclarecer as formas, exceto Campos que destaca a criação de mandatos fixos para a diretoria. No quesito reforma tributária não se vislumbra qualquer sugestão concreta, a não ser a continuidade das desonerações, por Dilma, e a formulação e negociação de projetos amplos, pelos opositores. Aécio e Campos também são omissos quanto à urgência de um tarifaço.
Em síntese, em um ambiente marcado pela desesperada e intransigente defesa oficial da linha adotada pelo palácio do planalto entre 2011 e 2014 que, além de não conseguir recolocar a nação nos trilhos do crescimento sustentado, fez ressurgir distúrbios macroeconômicos superados entre 1994 e 2008, e pela timidez do PSDB e PSB na designação das propostas de alterações ou adequações de rota exigidas a partir de 2015, perde-se a oportunidade de realização de um saudável confronto de ideias e conflito de opiniões a respeito de um projeto de desenvolvimento.
A pauta para o crescimento deverá, invariavelmente, englobar a definição dos ganhadores e perdedores diretos de um novo ciclo virtuoso, amparado no fortalecimento do mercado interno e na integração competitiva do Brasil em um quadro global de acirramento da concorrência. Nesse sentido, o compromisso inarredável com a estabilização macroeconômica e as reformas estruturais seria apenas o primeiro passo, mas extremamente relevante.
Gilmar Mendes Lourenço, economista, diretor-presidente do Ipardes, professor da FAE.
* Publicado no site do Jornal Gazeta do Povo em 20 de maio de 2014




















